Você gosta de estar sozinho?
O hobbie favorito de muitas pessoas inclui gastar tempo sozinho: envolvendo-se perto do fogo de uma boa paixão, indo para uma longa caminhada, construindo trens modernos, cozinhando uma comida gourmet, ou entrando em silêncio para rezar.
Para mim, pessoalmente, horas ou dias gastos sozinho podem ter sido alguns dos melhores e alguns dos piores momentos da minha vida.
Eu tive profundas experiências de paz, diversão, ou até mesmo alegrias em meio a solidão: fazendo 30 dias de um retiro Inaciano, tropeçando em verdades profundas enquanto pesquiso ou escrevo, subindo uma montanha na Escócia, ou andando uma peregrinação de 193km. Cada uma destas experiências foi desafiadora, exigentes também — mas sempre compensadoras no final. Elas renderam um crescimento pessoal e me permitiram sentir totalmente vivo, verdadeiramente humano, e verdadeiramente eu.
Eu também gastei milhares de horas da minha vida em isolamento e buscas infrutíferas. Elas deram uma prorrogação momentânea de meus fardos, mas me levaram a me sentir vazio e desconectado. Nos meus anos de adolescente, foram intermináveis horas de videogames. Ao longo da vida, houveram tempos gastos na internet, confortos como comida e bebida, ou longas horas estando ocupado, trabalhando e labutando na busca do “sucesso” em um caminho que não trouxe felicidade ou paz verdadeira, nenhum fruto duradouro.
É bom estar sozinho?
Nossa fé cristã oferece os dois lados da moeda. Por um lado, “Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2,18). Nós somos feitos para a comunhão — com Deus, com os outros, com nós mesmo. O pecado é uma ruptura nesta comunhão. Como uma consequência desta ruptura, isolamento e solidão se tornaram verdadeiras experiências infernais. De fato, autores como C.S. Lewis (em O Grande Abismo) ou seu amigo Charles Williams (em Descida ao Inferno) tem oferecido apresentações literalmente arrepiantes de como aqueles que “vão para o Inferno” iniciam a experiência de isolamento, alienação e miséria aqui e agora. No lado positivo da moeda “de estar sozinho”, nós vemos Jesus gastando longas horas na solidão, seja com jejum de quarenta dias no deserto ou passando toda a noite em oração. Nós vemos piedosos homens como São Bento ou Santo Antônio no deserto passando anos inteiros na solidão e gerando frutos abundantes na vida dos outros.
Esta é uma distinção importante entre solidão e isolamento. O primeiro nos conecta com Deus, os outros e nós mesmos, nos cura, nos revigora, restaura nossa comunhão, e gera muito mais frutos. O outro isola, ruina e apodrece, se tornando uma antecipação do Inferno.
Olhando para o cenário cinematográfico, podemos contrastar a “Fortaleza da Solidão” no Superman com o palácio de gelo da Elsa em Frozen. Superman se retira em sua fortaleza para reconectar com suas raízes, para pensar e meditar e, no final das contas, para ressurgir com clareza de visão e energia para servir. Elsa passa anos presa em isolamento até que seu coração finalmente derrete, e ela redescobre a beleza da vulnerabilidade, comunhão e amor.
Eu acho a história de São Bento especialmente cativante. Seus três anos de solidão na caverna de Subiaco mudaram sua vida. Isto preparou o caminho para que ele encontrasse verdadeira paz em um relacionamento saudável com Deus, com os outros e consigo. O Beneditino caminho de vida teve 1000 anos de impacto na Europa e, principalmente, nos Estados Unidos. Graças aos monges, a sabedoria dos anciãos foi salva e preservada; tribos barbarias se tornaram pessoas cristãs civilizadas; universidades e o aprendizado humano floresceu; democracias duradouras e estáveis surgiram.
Eu me lembro de minha peregrinação para Subiaco em 2012, ajoelhar naquela caverna e imaginar quantos milhões de vidas foram impactadas por causa dos frutos da solidão de um homem naquele lugar. Eu amo a descrição escrita um século depois por São Gregório, o Magno: “Então ele retornou para seu lugar de solidão, e estava sozinho com ele mesmo aos olhos de Deus”. Isto não foi uma fuga da realidade através do isolamento, nem um entorpecente para uma dor emocional, ou escapar em uma fantasia. Ele permaneceu na presença de Deus, e ele permaneceu “consigo mesmo”. Isto foi uma batalha espiritual que Deus o ajudou a vencer. O resultado final foi uma fecundidade superabundante quando ele viveu em comunidade com outras pessoas.
Solidão autêntica é uma parte essencial da experiência humana — mesmo se somos introvertidos ou extrovertidos! Somente quando temos momentos de silêncio e solidão, é que nós podemos ter um encontro com nossos mais profundos desejos e medos.
De fato, solidão é uma chance de encarar nosso sentimento de solidão ao invés de fugir dele. Nós experimentamos este sentimento de solidão quando nos sentimos sobrecarregados e sem suporte em uma nova e assustadora situação, quando nos sentimos incompreendidos ou não apreciados, quando nos sentimos excluídos ou rejeitados ou deixados de lado.
Eu senti todas estas coisas em minha própria vida. É doloroso. Eu gastei muitos momentos da minha vida tentando me auto isolar ou adormecer a minha dor. Um homem sensato que eu conheço gosta de dizer que “isolamento é a primeira droga”. Diferentes pessoas se curvam para diferentes drogas: jogos de azar, maconha, pornografia, casos sexuais, comida, álcool, compras, etc. Cada uma é, no fim das contas, uma tentativa de isolar e escapar, distrair e desviar, uma fuga da comunhão com Deus, fugindo por vergonha e desgosto de si mesmo, ao invés de encarar a bagunça de nosso coração.
Isto não precisa ser desta maneira. Deus fez nossos corações e os fez bons e belos. Nós somos filhos e filhas amados por Deus, e profundamente conectados com os outros membros do Corpo de Cristo — tanto aqueles que ainda lutam aqui na terra quanto aqueles que já são vitoriosos no Céu. Nós nunca estamos verdadeiramente sozinhos. Autênticas experiências de solidão servem para curar e restaurar nossa comunhão com Deus, com os outros e com nós mesmos. Elas nos ajudam a permanecer no amor e na verdade, e a dar frutos.
Tradução: Kathleen Solano.