Um ótimo artigo chamado “Como Parar de Sexualizar Tudo” foi publicado no “The Federalist” há poucos anos por D.C. McAllister. O artigo tocou no caráter doente de nossa idade moderna no que cerca as expressões de intimidade.
Essencialmente, foi pontuado que se tem ou evitado o toque e a intimidade, com medo de que tudo possa ser interpretada como um pecado ou avanço sexual; ou cedido completamente e tudo o que se toca é tingido com sobretons sexuais e insinuações.
McAllister escreve que “o efeito destas duas perigosas atitudes — puritanismo e sexualização — causa um efeito de distorção na amizade. Por um lado, as pessoas não se sentem livres para demonstrar suas emoções. Por outro, quando eles o fazem, seus sentimentos são sexualizados”.
Um documentário chamado “As Cartas Secretas do Papa João Paulo II” ilustra perfeitamente esta divisão distorcida. Por décadas, São João Paulo II manteve um relacionamento bem conhecido com a Doutora Anna-Teresa Tymieniecka, uma filósofa polonesa que foi uma especialista no trabalho do filósofo alemão Edmund Husserl. O interesse do Papa na fenomenologia de Husserl permitiu que os dois mantivessem uma amizade por anos. Ela era uma mulher casada com três filhos, vivendo na América. Ele, no momento em que se conheceram, era um Cardeal da Igreja. Eles mantiveram este bom relacionamento por muito anos.
Muitos podem pensar, como pensaram, que a amizade entre São João Paulo II e a Doutora Anna-Teresa, é um escândalo para a Igreja. Mas na verdade, o escândalo é outro, e não tem nada a ver com São João Paulo II: Infelizmente, a maioria dos homens e mulheres de hoje são incapazes de imaginar um relacionamento íntimo que não envolva certo romance sexual.
Na verdade, a Igreja tem uma longa história de exemplos de homens e mulheres que formaram íntimos e afetivos relacionamentos que não envolviam relação sexual. Isso se chama amizade.
De fato, São João Paulo II teve inúmeras amizades com mulheres que duraram décadas e incluíam cartas, ligações, almoçar e caminhar juntos. O fato é que São João Paulo II foi uma figura magnânima que amou as pessoas profundamente, e era transparente sobre suas amizades.
Agora sobre a correspondência, aqui está um trecho de uma carta:
“Eu sei que você tem completa confidência em minha afeição; eu não tenho dúvidas sobre isso e me delicio com este pensamento. Eu quero que você saiba e acredite que eu tenho um intenso e muito especial desejo de servir você com todas as minhas forças. Será impossível para mim explicar tanto a qualidade quanto a gratidão deste desejo que eu tenho de estar a seu serviço, mas quero contar para você que eu acredito que isto venha de Deus, e por esta razão, eu estimo isto e vejo crescer e aumentar notavelmente todos os dias… Deus tem me dado para você; então me considere seu nEle, me chame quando você quiser…”
Me desculpe se pareceu que te enganei. Está foi uma troca de mensagens entre São Francisco de Sales e Santa Jane de Chantal, datada em 24 de junho de 1604. Depois da morte de seu marido, São Francisco a serviu como seu diretor espiritual por anos, dando a ela conselhos para fundar uma nova comunidade religiosa.
Estes são exemplos de um amor casto e simultaneamente fervoroso, não obstante e em cada um, nós somos desafiados a olhar primeiramente como “ocasiões de graça” ao invés de “ocasião de pecado”. Sobre esta graça, nas palavras de São João Paulo II, “estamos indo para a maior conscientização de todas sobre a beleza gratuita do corpo humano, da masculinidade e feminilidade. Esta beleza gratuita se torna uma luz para nossas ações…”
Dois anos antes do momento de sua própria morte, Santa Teresa de Lisieux e um seminarista chamado Maurício trocaram um total de 21 cartas. Ele escreveu 11 e a Pequena Flor escreveu 10. Para essas duas almas santas, as cartas revelam um amor profundamente humano e completamente casto. Santa Teresa escreveu em um trecho:
“Em sua carta do dia 14 você fez meu coração estremecer de alegria. Eu entendi melhor do que nunca o quanto a sua alma é irmã da minha, desde que fomos chamados a subir à Deus pelo ELEVADOR do amor e não escalar os difíceis degraus do medo…”. Depois, quando ele foi enviado em missão, ela escreveu “Quando meu querido irmãozinho partir para a África, eu poderei segui-lo não somente em pensamentos e na oração; minha alma vai estar com ele para sempre…”.
Vamos olhar outra troca de cartas íntimas. Agora, entre homens por volta de 1600 anos atrás:
“… Conversar e brincar juntos, fazer certos serviços em turnos; ler livros honrados; se fazer de bobo ou ser sinceros… ansiar pelo ausente com paciência; e receber o que chega com alegria. Estas e outras expressões semelhantes, procedem dos corações daqueles que amavam e eram amados de novo, pelo semblante, pela língua, pelos olhos e milhares de gestos agradáveis; havia tanto combustível para derreter nossas almas, e dentre muitas, produzimos apenas uma. Isto que é o amor entre amigos…”.
Este foi Santo Agostinho, retirado de sua autobiografia íntima e perenemente moderna “Confissões” (Capítulo 8, sessão 13), escrita entre 397 e 400 D.C. Para ouvidos modernos, este nível de intimidade entre homens só pode ser visto como caso de homossexualidade. Estas mesmas mentes, tingidas novamente por uma cultura inundada de ilusões e sugestões sexuais em todas as coisas, também conseguem colocar um caso gay acerca do relacionamento entre e Davi e Jônatas em 1 Samuel 18, 1-13: “Assim que ele havia terminado de falar com Saul, a alma de Jônatas foi unida à alma de Davi, e Jônatas o amou com toda a sua alma”.
Nós nos tornamos, nas palavras do próprio São João Paulo II, “mestres da suspeita”, incapazes de ver como as interações humanas poderiam se elevar acima da mera gratificação e apropriação sexual.
Nada disso é novidade. Durante o processo de beatificação do Padre Pio, em 1990, o caso foi bloqueado depois que foram reveladas algumas cartas escondidas que o santo franciscano havia escrito para sua filha espiritual, como ele a chamada, Cleonice Morcaldi. Ele a havia conhecido por volta de 1930 quando ela era uma criança, órfã de pai e mãe. São Padre Pio prometeu à sua falecida mãe que cuidaria dela como sua filha. Alguns investigadores, entretanto, acharam as cartas muito afetivas.
Homem e mulher são terra santa. São terra sagrada, e neste lugar somos chamados a um profundo domínio de si, e a um reconhecimento sadio de nossos próprios corações, onde nós permanecemos com a capacidade de ver verdadeiramente uns aos outros. Isto requer trabalho e rezar com muita paciência, especialmente nesta presente escuridão. Mas, com a graça nós podemos recuperar um lindo dom, e a visão que temos uns dos outros pode de fato ser restaurada. É uma esperança em nosso alcance. Esta é nossa herança e uma promessa também. “Jesus veio restaurar a criação na pureza de sua origem” (CIC, 2336). Encerro com uma maravilhosa e profunda fala de São João Paulo II, originalmente dita em 8 de fevereiro de 1994, mas não foi publicada até 2006:
“Deus têm me dado muitas pessoas, jovens e idosos, meninos e meninas, pais e mães, viúvas, os saudáveis e os doentes. Sempre, quando Ele os deu para mim, Ele também me encarregou deles, e agora eu vejo que consigo escrever facilmente um livro separado sobre cada um – e cada biografia estaria no presente desinteressado que o homem sempre tem para o outro. Entre eles estavam os sem instrução, por exemplo os operários; também haviam estudantes, professores universitários, doutores e advogados e, finalmente, padres e os religiosos consagrados. É claro, entre eles estavam inclusos homens e mulheres. Um longo caminho me levou a descobrir o gênio da mulher, a Providência providenciou para que chegasse o momento em que eu realmente o reconhecesse e até, por assim dizer, estava mesmo deslumbrado com isso”.
São João Paulo o Magno, Poeta dos Mistérios Divinos e Apóstolo da Beleza da Pessoa Humana, rogai por nós!
Fonte: Bill Donaghy para o tobinstitute.org
Foto de capa: Vatican News Brasil
Que artigo maravilhoso! Sempre refleti a respeito disso e me incomodava ver as pessoas sexualizando a forma que eu costumo tratar meus irmãos em Cristo. Mas graças a Deus podemos “nos deslumbrar”, como disse Papa São João Paulo II, com a natureza de corpo e alma do ser humano, e amar tal natureza com a pureza que vem dEle.
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