Do Livro: Escola da Perfeição Cristã de Edouard Saint-Ome
Para se restaurar um belo pomar, deve-se primeiro arrancar os espinhos e o mato e plantar árvores que deem fruto. É o que significa o Senhor a Jeremias ao encarregá-lo do cultivo do jardim de sua igreja:
“Eis que te constituí hoje sobre todas as gentes e sobre os reinos para que arranques e destrua… edifiques e plantes” (Jr 1,10).
Para nos santificarmos devemos primeiro purificar o nosso coração de faltas e aí plantar as virtudes. O primeiro oficio da piedade consiste na extirpação do pecado mortal: falemos agora do pecado venial e de sua consequência, a tibieza.
I. Malícia do pecado venial
O pecado venial, ainda que não mate a alma, fere-a, contudo; ainda que não ofenda gravemente a Deus, não deixa de o agravar; não é um mal tão grande como o pecado mortal, mas não deixa de ser maior que os outros que possam pesar sobre as criaturas. Uma mentira, uma imprecação, é mal maior que a condenação ao inferno de todos os homens, santos e anjos.
Os pecados veniais ou são deliberados, ou indeliberados. Estes são os que o homem comete sem pleno consentimento e claro conhecimento; os deliberados são os que se cometem com vontade livre e com os olhos abertos. Não falamos aqui dos primeiros, isto é, dos que se cometem por pura fragilidade humana: destes nenhum homem fica isento; “Em muitas coisas nós todos caímos” (Tg 3,2). Todos os homens, mesmo os santos, cometem faltas. “Se dissermos que não temos pecado, seduzimos a nós mesmos e a verdade não habita em nós” (1Jo 1,8), diz S. João, por causa de nossa natureza corrompida pelo pecado, trazemos em nós mesmos a inclinação para o pecado, de modo que, sem uma graça especialíssima, qual a concedida à Ss. Virgem, é-nos impossível passar a vida sem pecados veniais indeliberados.
Semelhantes faltas Nosso Senhor permite até em seus servos mais fiéis, que se consagraram por inteiro a seu amor, para conservá-los na humildade e mostrar-lhes que cometeriam sem dúvida alguma pecados graves se sua mão divina não os preservasse, pois que tantas vezes sucumbem às faltas leves, apesar de seus bons propósitos e resoluções. Caindo, pois, em tais faltas, humilhemo-nos, reconhecendo nossa fraqueza, e avivemos nosso zelo, redobrando nossas orações, para que Deus sobre nós estenda seu braço poderoso e não permita que cometamos pecados mortais.
Tratamos aqui, portanto, só dos pecados veniais que são cometidos com plena deliberação. Estes, com o auxílio de Deus podemos evitá-los todos e assim procedem muitas almas santas que estão resolvidas a antes morrer que cometer um só pecado venial deliberadamente. S. Catarina de Gênova dizia que, para uma alma que está unida a Deus por um puro amor, o menor pecado é mais intolerável que o mesmo inferno e de si atestava que desejaria antes ser lançada num mar de fogo do que cometer deliberadamente um só pecado venial. E com razão falam assim os santos; pois iluminados pela luz divina, conhecem claramente que a menor ofensa de Deus é um mal maior que a morte e a aniquilação de todos os homens e anjos. “Quem terá a ousadia de dizer: isto é só um pecado venial, e, portanto, não é um grande mal?”, pergunta S. Anselmo. “Se Deus é ofendido, como se poderá afirmar que isso é um pequeno mal?” Se um súdito dissesse a seu rei: “Em outras coisas obedecer-te-ei, mas neste ponto não, porque não é de grande importância, que castigo e repreensão não mereceria?” Santa Teresa dizia: “Prouvera a Deus que temêssemos tanto os pecados veniais como tememos o demônio, pois eles nos podem prejudicar mais que todos os demônios do inferno”. E a Santa petia muitas vezes às suas filhas: “Deus nos guarde de todo, mesmo do mínimo pecado venial deliberado”.
Isto vale em especial para uma pessoa religiosa, conforme as palavras de S. Gregório Nazianzeno: “Toma a peito que uma única ruga em tua alma mais te desfigura que uma grande chaga aos mundanos”.
Aparecendo diante do rei uma cozinheira com as vestes todas manchadas, não a repreenderá justamente por ser uma cozinheira; mas ficará descontente e indignado vendo uma única mancha nas vestes de sua esposa, a rainha. Do mesmo modo procede Jesus Cristo com as faltas dos mundanos e de suas esposas. Desgraçado é o religioso que não se importa com os pecados veniais: nunca se tornará santo, nunca encontrará a paz.
Enquanto Santa Teresa não se desprendeu de certas faltas pequenas, não fez progresso algum na piedade e sentia-se infeliz vendo-se privada de toda a consolação divina e humana.
Justamente esta é a razão por que tantas almas consagradas ao serviço de Deus levam uma vida infeliz e não acham a paz; de um lado privam-se das alegrias do mundo e de outro lado não experimentam as consolações espirituais, porque, sendo mesquinhas para com Deus, Nosso Senhor também se mostra ávaro para com elas. Entreguemo-nos sem restrições a Deus, que também se dará incondicionalmente a nós.
“Eu pertenço a meu bem-Amado e para mim se volta ele” (Ct 7,10).
Apoio: Gabriel Serafim