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O que são os 4 Temperamentos?

Ultimamente, muito se tem ouvido acerca dos quatro temperamentos, e sabemos que muitas dúvidas e polêmicas surgem acerca deste assunto. Estamos aqui para apresentá-los a você e pontuar algumas direções práticas fundamentais.

Antes de entender o que são os temperamentos, precisamos compreender a importância do autoconhecimento.

Como os santos da Igreja conseguiram vencer suas inclinações e fraquezas, vivendo uma absoluta entrega à Vontade Divina? É claro que pela graça de Deus e pela disposição firme de cada um, mas Santa Teresa D’Ávila nos ensina que “a causa de grandes males é o fato de não nos conhecermos devidamente, e distorcermos o conhecimento próprio”. Ou seja, a ausência do autoconhecimento é motivo de desorientação e fraqueza.

Muitas são as “ferramentas” que foram apresentadas ao longo dos milênios, dentre elas, os temperamentos.

O estudo dos temperamentos é de origem antiga. Seu antecedente remoto é o médico grego Hipócrates, que no séc. IV a.C. formulou a teoria dos quatro humores ou fluidos corporais. Para Hipócrates, haveria no corpo humano, em proporções mais ou menos iguais, quatro tipos de líquidos: o sangue, a bílis negra (ou atrabílis), a bílis amarela e a fleuma, de sorte que as doenças físicas seriam consequência de um desequilíbrio entre eles.

Essa ideia foi retomada séculos mais tarde, já em época cristã, pelo médico romano Galeno, para quem os humores, além de sua função fisiológica, estariam vinculados também às disposições emocionais de cada indivíduo. Assim, os contornos temperamentais da pessoa, isto é, sua disposição a ser desta ou daquela maneira, se deveriam, fundamentalmente, à preponderância de um dos quatro humores hipocráticos. [1]

Veja que desde sua origem, não há ligação com fenômenos condenados pela Santa Igreja, como muitos acusam; não que não haja deturpações e influências que outros colocaram sobre eles, posteriormente, mas em sua essência não há.

Os temperamentos são uma pequena e humilde ferramenta para o autoconhecimento. Mas, o que é temperamento? Padre Antonio Royo Marin, um grande intelectual da ordem Dominicana, falecido em 2005, define como: “O conjunto de inclinações íntimas que brotam da constituição fisiológica de um homem”.

Não precisa ser grande filósofo ou observador para notar que há inclinações naturais no ser humano. O próprio Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino trata disso em sua Suma Teológica. Eles formam parte de nossa personalidade e de nosso caráter, visto que o “caráter é o conjunto de disposições psicológicas” e também espirituais “que resultam do temperamento, enquanto modificado pela educação e os esforços da vontade e fixado pelo hábito” [2].

Existem quatro classificações de temperamento: os sanguíneos, coléricos, fleumáticos e os melancólicos. Eles são marcados pela excitabilidade e durabilidade das impressões em nós.

Como eu descubro o meu temperamento?

Existem alguns pontos que devem ser analisados: primeiro se você é quente ou frio e, depois, se é seco ou úmido.

As pessoas de temperamento quente são aquelas que tendem à extroversão e possuem respostas rápidas diante das situações e, ao contrário, as de temperamento frio tendem a reagir de forma lenta e menos intensa.

Os úmidos, por sua vez, são aqueles que por serem “desencanados”, esquecem facilmente das coisas; já os secos, tendem a ficar com marcas profundas por mais tempo, remoendo os sentimentos e situações. A combinação destes qualifica os temperamentos:

Quente e Úmido: estas são as inclinações que classificam o temperamento sanguíneo. O sanguíneo é muito ligado aos sentidos e com grande tendência à dispersão, dificilmente concentrando-se em uma única coisa. Além disso, por sua tendência à extroversão, tem a habilidade da comunicação numa dimensão muito maior que os demais, se expressando com a intenção de se relacionar.

Quente e Seco: combinação que designa o Colérico. Pessoas com este temperamento geralmente têm a boa capacidade de liderança e têm a tendência de não reconhecer autoridades, o que pode levá-las a confiar muito em si mesmas e nos próprios esforços. São extrovertidas e em geral colocam tudo para fora de forma desordenada. Não tomam decisões para agradar aos outros, mas para perseguirem seus objetivos e ideais. Além disso, o colérico tem dificuldade de aprofundar suas emoções, por isso precisa de que outrem o ajude a entender o que está acontecendo em sua vida; entretanto, sempre duvida da capacidade de quem o ajuda.

Frio e Úmido: esta é a representação do Fleumático, o introspectivo. Sua tendência é a inação (nem começa, nem persevera) e, ao invés de se enfrentar e sair do seu mundinho para configurar-se a Cristo, prefere se “divertir” no seu pequeno mundo interior. Contudo, os fleumáticos costumam ser grandes conciliadores e diplomatas, pois julgam e enxergam as situações objetivamente.

Frio e Seco: por fim, chegamos à combinação do Melancólico. As pessoas com este temperamento são muito atraídas pelo seu mundo interior e têm a tendência de se prender às impressões internas e girar ao redor de uma ilusão, vivendo fora do “mundo real”. A ilusão do melancólico é acreditar que as coisas dependem dele, ou seja, acredita que se ele resolver seus problemas interiores, os problemas do mundo estarão resolvidos. Isso é um orgulho mascarado. Entretanto, quando saem do mundo ilusório e vivem no mundo real tendem a ser muito competentes, auto sacrificados e organizados pois entendem que têm responsabilidades e as assumem.

O autoconhecimento nos auxilia a potencializar o que é bom e orientar as más inclinações. Percebam que conhecer o seu temperamento não é simplesmente dar nome às suas características. Embarcar nessa descoberta de si mesmo, com profundidade, deve nos dirigir à santidade. O temperamento deve ser vencido, e não ser nosso senhor.

Para ajudar na educação do nosso caráter e do nosso temperamento, é muito válido o estudo da vida dos santos, principalmente aqueles que possuem o mesmo temperamento que o nosso; pois, eles que atingiram os altos cumes do amor, podem nos ajudar a vencer nossas limitações e viver a santidade a cada dia.

Santo Agostinho é um santo que ajuda muito os sanguíneos com sua história de vida. Ele era um exímio orador e todos nós sabemos que viveu um longo processo de conversão, marcado por pecados contra a pureza. Como ele mesmo disse, buscou por anos nas criaturas aquilo que somente o Criador poderia dá-lo. Além deste santo, São Pedro Apóstolo, Santa Teresa D’Ávila e São Francisco Xavier também eram sanguíneos.

Alguns coléricos foram: São Jerônimo, Santo Inácio de Loyola e São Francisco de Sales. É interessante que o colérico busque conhecer a história dos santos e de homens e mulheres que morreram pela fé e são exemplos de heroísmo. Isso faz muito sentido para ele e o influencia positivamente.

O melhor caminho para o Fleumático é potencializar sua feliz disposição, pois quando ele se dá ao trabalho de julgar algo ele julga de forma objetiva e não passional; como fez Santo Tomás de Aquino, por exemplo.

Santa Teresinha é um grande farol para os Melancólicos. Uma menina ferida no seu mundo afetivo-emocional (ferida com a morte da mãe, e com a entrada da irmã no Carmelo – que a deixou órfã por duas vezes); feridas essas que fizeram com que ela se perdesse em seus afetos e ficasse até doente, delirante. Mas, que após retirar o seu olhar sobre si mesma, para direcioná-lo a Cristo, conseguiu se vencer e se doar até morrer de amor. O Apóstolo São João, Santa Faustina, São Bernardo de Claraval e São Luís Gonzaga também foram melancólicos.

Reconhecer as inclinações do nosso ser pode até parecer fácil, mas exige que deixemos de ser uma juventude fraca e lutemos para lapidar uma personalidade forte.

“Conheça-te. Aceita-te. Supera-te.”
(Santo Agostinho)

Temos em nosso site outro artigo do Padre Antônio Royo Marin, que trata especificamente de cada temperamento.

Referências:
[1] Curso do Padre Paulo Ricardo sobre os 4 temperamentos
[2] Cf. S. Tomás de Aquino, STh I-II, 51 1.

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