A prisão no jardim
Aquele que havia libertado Lázaro das ataduras da morte submetia-se agora à morte. Judas conduziu um grupo de guardas dos chefes dos sacerdotes e fariseus, que empunhavam lanternas, archotes e armas. Judeus e gentios uniram-se na prisão de Cristo. Embora fosse lua cheia, Judas teve de dar aos soldados romanos um sinal para que conhecessem Nosso Senhor; o sinal foi um beijo. Antes, contudo, que os archotes procurassem a Luz do Mundo, o Bom Pastor foi ao encontro deles.
Judas estivera muitas vezes com Nosso Senhor naquele jardim, aonde o Mestre levava os discípulos para orar; portanto, ele sabia onde encontrá-Lo. Os maiores traidores são os criados na santa fraternidade de Cristo e de Sua Igreja. Só eles sabem onde encontrar Cristo depois do cair da noite.
São João, que estava no jardim naquela noite e presenciou toda a cena, disse que nada do que aconteceu pegou Nosso Senhor de surpresa: Como Jesus soubesse tudo o que havia de lhe acontecer, adiantou-se […] (São Joáo 18,4)
Adão escondeu-se de Deus no Jardim do Éden; Deus agora procurava os filhos de Adão no Jardim do Getsemani. Com plena consciência de todas as profecias do Antigo Testamento a Seu respeito como Cordeiro de Deus e como oferta voluntária pelo pecado, Ele adiantou-se em rendição. Dirigindo-se com majestade imponente à multidão que se juntou com espadas e pedras nas mãos, desafiou-os a nomear Aquele a quem buscavam:
A quem buscais?
Responderam: A Jesus de Nazaré.
(São João 18,4-5)
Não disseram “A ti” ou “Tu és aquele que buscamos”. Era evidente que não O reconheceram nem mesmo sob a lua cheia. Foi por isso, também, que tinham combinado previamente com Judas um sinal pelo qual O conheceriam – o beijo. É curioso que aqueles que estão empenhados no mal não conseguem reconhecer a Divindade nem mesmo quando ela se põe bem diante deles. A Luz pode brilhar nas trevas, mas as trevas não a compreendem. E necessário mais que lanternas e lua cheia para perceber a Luz do Mundo. Como explicou São Paulo:
Se o nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a luz do Evangelho, onde resplandece a glória de Cristo, que é a imagem de Deus. (2 Coríntios 4,3-4)
E então lhes disse: “Eu sou Jesus de Nazare”. Sobreveio-lhes um terror paralisante, recuaram e caíram por terra. A humanidade dele nunca se separou da Divindade, assim como a Cruz nunca se separou da Ressurreição. Um momento antes, passara por grande agonia; agora, resplandecia a majestade de Sua Divindade. Noutra ocasião, os oficiais que foram prendê-lo acabaram presos pelas palavras Dele: os que seriam captores retrocederam, pois nenhum deles, como disse Jesus, tiraria Sua vida; Ele a entregaria por Si mesmo. Mil anos antes, o salmista previra esse acidente, que aconteceu figurativamente a Davi:
Quando os malvados me atacam para me devorar vivo, são eles, meus adversários e inimigos, que resvalam e caem.
(Salmo 26,2)
Quando teve um vislumbre de Deus, Isaías disse que estava “perdido”; e Moisés não consegue olhar a face de Deus. E agora a Divindade, habitando um corpo humano prestes a ser entregue à morte, reluziu para lançar os soldados e a turba numa massa disforme. Nunca há humilhação sem sinal de glória. Quando se humilhou para pedir a uma mulher da rua um pouco de água, Ele prometeu dar água da vida; quando dormiu, exausto, num barco, despertou para ordenar ventos e mares. Agora, enquanto se entregava nas mãos dos homens, ali reluziu Sua glória. Ele podia ter fugido, com os soldados e Seus inimigos caídos por terra, mas esta era a “Hora” em que o Amor se fez cultivo a fim de tornar o homem livre.
O auto sacrifício não busca vingança. Judas e os outros não tinham poder para captura-lo a menos que Ele livremente se entregasse em suas mãos. Ao dar poder aos inimigos para que se levantassem, Ele, como o Bom Pastor, tinha uma única preocupação – Suas ovelhas:
Se é, pois, a mim que buscais, deixai ir estes. (São João 18,8)
Ele havia de seguir sozinho rumo ao sacrifício. O Antigo Testamento ordenava que o sumo sacerdote estivesse sozinho quando da oferta do sacrifício:
Ninguém esteja na tenda de reunião quando Aarão entrar para fazer a expiação no santuário até que saia. Fará assim a expiação por si mesmo, pela sua família e por toda a assembleia de Israel. (Levítico 16,17)
Esta era Sua hora, mas não a hora dos apóstolos. Mais tarde, eles sofreriam e morreriam em nome do Senhor, mas por ora não conseguiriam compreender a Redenção até que o Espírito os tivesse iluminado. Ele passaria pela prensa de vinho sozinho. Os apóstolos ainda não estavam em condições espirituais de morrer com Ele; dentro em pouco, todos o abandonariam. Ademais, não podiam sofrer por Cristo até que este primeiro sofresse por aqueles. Todo o propósito de Sua morte redentora, em certo sentido, era dizer a todos os homens “deixai ir estes”.
Ao adentrar o jardim, o Salvador pedira a Pedro, Tiago e João que “orassem e vigiassem”. Pedro agora decidira trocar a oração pela ação. Tomando uma das duas espadas que trazia consigo, feriu Malco, o servo do sumo sacerdote. Como espadachim, Pedro era um ótimo pescador, pois o melhor que conseguiu fazer, em seu intento desgovernado, foi cortar a orelha de Malco. Conquanto o zelo de Pedro fosse sincero, bem-intencionado e impulsivo, ainda assim estava equivocado na escolha dos meios. Nosso Bendito Senhor primeiro tocou a orelha do homem ferido e o curou; depois, voltando-se a Pedro, disse:
Enfia a tua espada na bainha! Não hei de beber eu o cálice que o Pai me deu? (São Joáo 18,11)
Aqui contrastamos a espada e o cálice; a espada vence pela violência, o cálice, pela submissão. Não a impaciência do violento, mas a paciência dos santos haveria de ser Seu modo de ganhar almas. Amiúde, referiu-Se a Sua Paixão e morte com a analogia de um “cálice”, como quando perguntou a Tiago e João se podiam beber do cálice de Sua Paixão. Agora o Senhor fala do cálice não como vindo de Judas, nem do Sinédrio, nem dos judeus, nem de Pilatos ou de Herodes, mas do Pai Celestial. O cálice continha a vontade do Pai, segundo a qual, por amor aos homens, Jesus havia de oferecer a própria vida a fim de restaurar-lhes uma vez mais a filiação divina. Tampouco diria que pesava sobre Ele a sentença de ter de sofrer Sua Paixão, mas, antes, que Ele Mesmo, por amor, não podia agir de outro modo. “Não beberei deste cálice?” Ademais, aqueles que arbitrária e presunçosamente recorreram à violência, disse Nosso Senhor a Pedro, sofreriam dessa mesma violência. A vingança traz sua própria punição. Corpos podem ser conquistados com espadas desembainhadas, mas as mesmas espadas em geral se voltam contra aqueles que as empunham:
porque todos aqueles que usarem da espada pela espada morrerão (São Mateus 26,52)
Essa era a única lição humana comprovada pela história. Pedro ainda tinha de aprender que Aquele que parecia fraco era verdadeiramente Deus; que, se desejasse, podia invocar em Seu auxilio um exército maior que qualquer um que já se viu nesta terra:
Crês tu que não posso invocar meu Pai e ele não me enviaria imediatamente mais de 12 legiões de anjos? (São Mateus 26,53)
Ele usou o termo romano “legião”. Fora preso pelo que se chamava uma coorte, ou a décima parte de uma legião (que continha cerca de seis mil homens). Se quisesse, podia ter chamado em sua ajuda 12 vezes seis mil para livrá-Lo de Seus inimigos. Se houvesse um apelo à força, a espadinha de Pedro seria reduzida à insignificância em comparação às hostes celestiais sob as ordens do grande Comandante. Mas a recusa a invocar os anjos não foi uma rendição involuntária ao destino, nem a submissão à dor a fim de ser purificado. Antes, foi uma abdicação tranquila de alguns de Seus direitos; uma abstinência voluntária do uso de uma força superior por causa dos outros, uma liberdade permanente com pleno poder de ir embora, e ainda assim uma submissão por amor à humanidade – eis um sacrifício fora do comum.
Voltando-se para a multidão sedenta de sangue, disse:
Saístes armados de espadas e porretes para prender-me, como se eu fosse um malfeitor. Entretanto, todos os dias estava eu sentado entre vós ensinando no templo e não me prendestes. Mas tudo isto aconteceu porque era necessário que se cumprissem os oráculos dos profetas. (São Mateus 26,55-56)
Mas o que haviam profetizado os profetas? Para citar apenas um, Isaías previu como Ele seria contado entre os transgressores por Seus inimigos.
porque ele próprio deu sua vida, e deixou-se colocar entre os criminosos, tomando sobre si os pecados de muitos homens, e intercedendo pelos culpados. (Isaías 53,12)
Foi maltratado e resignou-se; não abriu a boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. (Ele não abriu a boca.) (Isaías 53,7)
Olhando além de todas as causas secundárias, tais como Pilatos e Anás, romanos e judeus, Nosso Senhor não via inimigos a serem combatidos pela espada, mas um cálice oferecido pelo Pai. O Amor era o motivo e a origem do sacrifício. Como Ele disse:
Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. (São João 3.16)
O pecado exigia expiação ou reparação. Sendo homem, Ele podia agir em nome do homem; sendo Deus, Sua Redenção pelo pecado teria valor infinito. Sua natureza humana tornou-o suscetível à dor e à morte e, por tanto, capaz de oferecer-se a si mesmo como sacrifício; no entanto, tinha de ser sem pecado, se não Ele mesmo careceria de Redenção. O Cordeiro usado no sacrifício tinha de ser “sem defeito”. O amor do Cordeiro tinha de ser voluntário; obrigar o Cordeiro de Deus a sofrer seria o ápice da injustiça. Daí a afirmação de poder no momento em que se entregou nas mãos deles. O que Deus permitia era tanto Sua vontade quanto Sua ordem. Nosso Senhor recusou-se a ver a mão de Seus inimigos em Sua morte, passando imediatamente à ideia do cálice que o Pai Lhe deu. Ele descansava nesse amor, embora o cálice fosse amargo, pois Dele haveria de vir o bem.
Ao entregar-Se nas mãos deles, cumpriu-se o que Nosso Senhor previu acerca dos apóstolos: Então os discípulos o abandonaram e fugiram. (São Mateus 26.56)
Pedro, que desembainhara a espada na defesa contra o cálice, fugiu. Mais tarde, acompanhava a cena a uma distância segura. João também seguia às escondidas por trás da turba, para aparecer depois na casa do sumo dote. Judas, porém, permanece para ouvir a palavra “Hora”, que o Mestre havia pronunciado pela primeira vez em Caná:
mas esta é a vossa hora e do poder das trevas. (São Lucas 22,53)
Muitas vezes, o Senhor disse a Seus inimigos e a Herodes que não podiam fazer nada com Ele até que Sua “Hora” tivesse chegado. Agora, anunciou-a; era a hora em que o mal podia apagar a Luz do Mundo. O mal tem sua hora; Deus tem Seu dia. Aquele que foi envolto em panos e posto numa manjedoura quando assumiu a natureza humana em Belém estava agora prestes a ser atado com cordas e posto numa Cruz. Noutra ocasião, quando Seus inimigos tentaram prendê-Lo, Ele os prendeu com a força de Suas palavras; agora Ele se sujeitava à prisão porque havia chegado a Hora. Os apóstolos, ouvindo o retinir das correntes e vendo o brilho das espadas, esqueceram-se de toda a glória do Messias, abandonaram-no e fugiram. O Sumo Sacerdote havia de oferecer o sacrifício sozinho.