Escrito por Will Wright
Traduzido por Sérgio Del’ Arco Filho
São Pedro, em sua primeira carta, diz:
“Sede sóbrios e vigilantes! Eis que o vosso adversário, o diabo, vos rodeia como leão a rugir, procurando a quem devorar”
(1Pd 5,8).
Desde o começo, o Apóstolo sabia bem que o Inimigo estava à espreita e pronto para causar nossa morte. Ele não tinha nada das nossas noções modernas de que o demônio é um mito. Um dos principais objetivos do diabo é que o ignoremos ou que pensemos que não existe.
Do contrário, estejamos vigilantes!
“Onde quer que Deus construa uma casa de oração,
Daniel Dafoe (The True-Born Englishman)
Lá o diabo sempre constrói uma capela:
E descobrir-se-á, mediante investigação,
Que a última tem a maior congregação”.
Este é um fascinante vislumbre da cartilha do diabo, de como age. Ele é um autor de mentiras e manipulador sutil. Ele não convence uma pessoa a se afastar da graça de uma só vez. Ele astutamente arrasta a pessoa mais e mais para longe de Deus, um passo por vez. Há até mesmo aqueles que acreditam que estão servindo a Deus, quando, na verdade, estão servindo a vários deuses.
Satanás espera bem no limite de nossa consciência e busca por qualquer sinal de fraqueza. Ele está rodeando a cerca procurando por qualquer brecha. Senta-se à porta de nossas igrejas, as vezes atrevendo-se até mesmo a entrar no nártex ou átrio.
Quantas vezes você se pôs a fofocar ou a caluniar logo após a Santa Missa? Aqueles que estão mais próximos de Deus estão mais distantes da queda, porém, também somos chamados a ser os mais preparados com nossas armas.
COMO SOMOS TENTADOS POR SATANÁS
Satanás gosta de tentar-nos com dinheiro, fama, sexo, poder e com a aparência de liberdade. Ele transforma essas coisas em ídolos e leva-nos lentamente e sutilmente a adorá-las ao invés de adorarmos ao único e bom Deus. Por vezes, ele consegue fazer isso com um sussurro ou uma sugestão de que fujamos de uma responsabilidade ou que pulemos algum momento de oração. Devemos estar atentos aos movimentos do inimigo.
Em seu romance epistolar, Cartas de um diabo a seu aprendiz, o apologista e escritor cristão C.S. Lewis expõe alguns dos modos com que Satanás tenta-nos. O que temos a seguir são resumos de alguns pontos chave.
Nestas cartas, o demônio chefe Fitafuso está instruindo o jovem demônio aprendiz Cupim. Então, as formulações parecerão contrárias; isso é parte da genialidade da escrita de Lewis, pois conseguimos ter um vislumbre de como os demônios tramam a nossa perdição.
- As forças demoníacas tentarão convencer-nos a “estimar o valor da oração mediante o [nosso] sucesso em produzir o sentimento desejado” (p. 18)*. Porém, os sentimentos comumente são apenas efeitos, em ocasiões específicas, de como estamos nos sentindo, se estamos bem descansados e assim por diante.
- Eles atacarão nossa ansiedade. “Não há nada como o suspense e a ansiedade para bloquear a mente humana contra o Inimigo**. Ele quer que os homens estejam preocupados com o que fazem; nosso trabalho é mantê-los pensando sobre o que acontecerá com eles” (p. 26).
- Eles nos imobilizarão em nossos sentimentos em relação a alguma situação. “Quanto mais frequentemente ele sentir-se sem ação, menos será capaz de agir nas situações e, a longo prazo, menos ele será capaz de sentir” (p. 66).
- Eles nos manterão fixados no futuro ao invés de nos mantermos no momento presente. “É muitíssimo melhor fazê-los viver no Futuro… ele lhes é desconhecido; desse modo, ao fazê-los pensar sobre o futuro, nós os fazemos pensar sobre coisas irreais… o futuro é a parte do tempo mais completamente temporal – pois o Passado está congelado e já não flui mais, e o Presente está todo aceso com raios eternos” (p. 74).
- Farão com que Jesus pareça estar distante. Lembre-se, neste livro, o “Inimigo” de Fitafuso é o nosso Senhor. “Pois a presença do Inimigo, de outro modo experienciada pelos homens na oração e no sacramento, nós a substituímos por uma figura meramente provável, remota, obscura e grosseira. Uma figura que falava um idioma estranho e morreu há muito tempo atrás. Tal objeto, de fato, não pode ser adorado” (p. 117).
- Eles farão com que primeiramente busquemos as nossas causas de estimação do que a Cristo. Somos uma Igreja de Cristo, não uma igreja de causas. “A coisa a se fazer é que o homem primeiramente valorize a justiça social como sendo algo que o Inimigo exige, e então fazê-lo chegar ao ponto em que ele valorize o Cristianismo porque pode produzir justiça social. Pois o Inimigo não aceitará ser usado como mera conveniência” (p. 118).
- Eles irão tentar-nos a apenas buscarmos a virtude até o ponto em que se torne algo difícil. “Uma castidade ou honestidade ou misericórdia que cede ao perigo, será casta ou honesta ou misericordiosa somente sob condições. Pilatos foi misericordioso até o ponto em que isso se tornou um risco para ele” (p. 153).
Os sete princípios da Guerra Espiritual
RESISTIR
Como então podemos resistir às inclinações do diabo e ao nosso egoísmo?
A única resposta é Jesus. “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5).
Um excelente texto para ler a respeito da resistência ao Satanás é O combate espiritual do Pe. Lorenzo Scupoli. Este é um livro clássico que resistiu ao teste do tempo.
Pe. Scupoli lembra-nos de que não devemos confiar em nós mesmos, mas antes, devemos confiar em Cristo. Ele diz, “Portanto, durante toda a nossa vida, todos os dias e a todos os momentos, devemos ter firmemente em nossos corações o sentimento, a convicção e a disposição de que em hipótese alguma podemos permitir-nos a pensar em: confiarmos e a acreditarmos em nós mesmos”.
Devemos também ser cuidadosos com nossa forma de responder à preguiça, à fofoca, à ganância, à luxúria, ao orgulho e a todas as outras tentações em nossas vidas que estão encerradas em nossos corações e no mundo ao nosso redor. Devemos estar atentos às coisas que nos rodeiam.
Devemos tomar cuidado com as companhias que cultivamos. Se nos cercamos de pessoas que não priorizam a Cristo, então nossas próprias prioridades sofrerão. Ou pior, cairemos nos vícios e maus hábitos que personificam.
A OFENSIVA
Apesar de sermos resistentes, devemos ser também proativos em nossa luta espiritual. Devemos ser especialmente diligentes nas orações. Se não temos o hábito de rezar, é uma boa idéia encontrar algum tempo para a oração e fazer disso um hábito. Quanto mais tempo passamos com Jesus, mais nos tornamos como Jesus.
A coisa mais importante que podemos fazer é viver uma vida sacramental, especialmente a Sagrada Eucaristia e o sacramento da Confissão.
“Nosso Senhor Jesus Cristo mesmo derruba nossos inimigos através de nós, ou conjuntamente conosco. Pois aquele que come da carne de Cristo e bebe de Seu sangue habita em Cristo e Ele habita nele. Portanto, quando superamos os inimigos, é o sangue de Cristo quem os supera, como está escrito no Apocalipse: ‘Eles, porém, o venceram graças ao sangue do Cordeiro’ (Ap 12, 11)”.
Pe. Scupoli.
A Eucaristia é o Sacramento dos Sacramentos e é o Corpo e o Sangue do Senhor. Ao recebermos a Eucaristia em estado de graça, entramos em comunhão com o Cristo ressuscitado e glorificado.
Um belo sacramento que jorra do poder purificador da Eucaristia é o Sacramento da Confissão. Ao tomarmos o hábito de buscar a este Sacramento, entramos em comunhão com a Cruz de Cristo. Nossos pecados e ofensas são trazidos aos pés do Cristo, com o conhecimento de que Cristo já morreu pelo perdão de nossos pecados.
O Satanás quer que fiquemos longe dos Sacramentos. Devemos fazer tudo ao nosso alcance para viver uma vida sacramental e confiar em Jesus. Esta é a maior ofensiva contra o Inimigo.
A Sagrada Família
A Sagrada Família é poderosa contra as forças demoníacas. Nossa Mãe Santíssima é preanunciada por Deus em Gênesis 3 como aquela que pisa na cabeça da serpente, junto com seu Filho. Ela caminhou com Jesus até o Calvário e uma espada atravessou sua alma enquanto assistia em agonia seu amado Filho sendo pregado na Cruz e depois suspenso no alto. Todas as graças que Cristo proveu ao mundo foram confiadas a nossa Mãe Santíssima que distribui-as pelo poder do Espírito Santo. Ela é uma poderosa aliada e intercessora. São José é chamado de “Terror dos demônios”. Ele é o Protetor da Igreja, o Patrono da Boa Morte, o protetor terreno de Jesus e um homem de justiça (retidão) e pureza. Que nós imitemos seu exemplo e peçamos por sua poderosa intercessão. “A oração fervorosa do justo tem grande poder” (Tg 5, 16).
Um dos títulos de Maria é “Nossa Senhora, Auxílio dos exorcistas, Terror dos demônios”. Ela é a mulher mais poderosa na história do mundo. Completamente livre do pecado, ela aceitou as palavras do anjo com fé e abrigou o corpo humano de Jesus. Ela é o molde do qual Cristo veio e devemos permiti-la moldar-nos mais à imagem de seu Filho.
Uma das armas mais poderosas que temos contra Satanás é o Santíssimo Rosário. Padre Pio referia-se a ele apenas como “a Arma”. Nele, habitamos nos Mistérios de Cristo e ligamo-nos a Nossa Senhora que é a saúde dos doentes, o refúgio dos pecadores e o conforto dos aflitos.
Oração a São Miguel Arcanjo
São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate, sede o nosso refúgio contra as maldades e ciladas do demônio. Ordene-lhe Deus, instantemente o pedimos, e vós, Príncipe da Milícia Celeste, pela virtude divina, precipitai no inferno a satanás e aos outros espíritos malignos, que andam pelo mundo para perder as almas. Amém!
* Páginas da edição brasileira: LEWIS, C.S.. Cartas de um diabo a seu aprendiz. Tradução Juliana Lemos. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2º ed., 2009 (N.T.).
** O Inimigo de Fitafuso é Jesus (N.T.).
Palavras-chave: Batalha Espiritual ; Batalha ; Guerra ; Guerra Espiritual ; Inimigo ; Mal ; Oração ; Paraíso