Catarina foi desde criança muito devota e piedosa, quando tinha apenas 5 anos, aprendeu a oração do Angelus, e a repetia sem parar. Enquanto subia ou descia as escadas da casa, costumava ajoelhar-se em cada degrau e rezar uma Ave Maria.
Seus pais queriam muito que ela casasse, e ela havia prometido a Deus sua virgindade. Frei Tomás a aconselhou a cortar seus cabelos e assim ela fez: os cortou rente à raiz e se cobriu com um véu, o véu era costume de mulheres casadas apenas. Por conta disso, ouviu muitos gritos e ameaças, foi proibia de ter um quarto só para ela e teve de dividir com seu irmão que era solteiro. Sua mãe demitiu a empregada e a obrigou a trabalhar para a casa, passava o dia todo cheia de compromissos. A família humilhava muito Catarina, tentando levá-la a entender que seria melhor casar-se que trabalhar como escrava para uma grande família. Ela sofreu muito e nem por isso desistiu de sua vocação.
Santa Catarina de Siena é doutora da Igreja e suas cartas são de grande proveito espiritual para seus devotos até hoje. Seguem aqui alguns escritos dela ao Papa e ao Legado Pontifício. Ao final, uma carta bônus muito especial!
Conselhos ao Papa
(Carta n° 196 a Gregório XI, Papa)
1- Saudação e objetivo
Em nome de Jesus Cristo crucificado e da bondosa Maria, santíssimo pai em Cristo Jesus, eu, Catarina, indigna e mísera filha vossa, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de ver-vos bom pastor.
2- Jesus, o guerreiro do amor
Meu doce Pai! Ao ver que o lobo rouba vossas ovelhas e não há quem cuide delas, recorro a vós como nosso pai e pastor, pedindo-vos em nome de Jesus Cristo que façais como Ele. Para libertar a humanidade, ovelha extraviada, das mãos do demônio, numa chama ardente de amor Ele se entregou à morte na cruz. De fato, a humanidade se revoltara contra Deus Pai e os demônios retinham os homens como seus. Vindo ao mundo, Deus viu o mal, a condenação e a ruína da ovelha humana; e, também, que não poderia libertá-la com a ira e a guerra. Mesmo ante as injúrias da ovelha rebelde e desobediente, a eterna e suprema Sabedoria não agiu assim. Procuro o modo mais carinhoso, terno e amoroso possível. Consciente de que o amor é a realidade que mais atrai o coração humano, escolheu amar. Essa é a razão por que Deus tanto ama. No seu corpo e na sua alma, Jesus foi somente amor.
Por amor Deus Pai nos criou à sua imagem e semelhança. Por amor o pai e a mãe dão vida aos filhos na geração. Já que o amor atrai assim o homem, corretamente o Pai lhe atirou o anzol do amor, na pessoa do Verbo, o Filho unigênito, que assumiu nossa natureza para estabelecer a grande paz. A justiça exigia castigo para a injúria cometida contra o Pai, mas o que veio foi a misericórdia divina, foi o inefável amor. E para dar satisfação à justiça e cumprir a misericórdia, o Pai condenou o filho à morte, revestido da nossa humanidade, na massa adâmica que o ofendera. A morte de Jesus aplacou a ira do Pai, pois na pessoa de Jesus a justiça se cumpriu. Satisfez-se à justiça, cumpriu-se a misericórdia. E o gênero humano foi retirado das mãos do diabo. No torneio da morte contra a vida e da vida contra a morte, o bondoso Verbo lutou nos braços da santa cruz. Sua morte destruiu a nossa morte; destruindo a vida corporal, deu-nos a vida. Assim pelo amor Deus nos atraiu a si. Venceu nossa maldade pela benignidade. Oxalá todos os corações se deixassem atrair! Ao dizer que maior amor não poderia mostrar por nós, do que dar a vida como a amigos, Ele elogiava tal amor. Mas que diremos do amor ardente e sublime de quem deu a vida por inimigos? Pois mediante o pecado, éramos inimigos de Deus. Ó amoroso Verbo! com que amor procuraste a ovelha, com que amor morreste por ela e a colocaste no redil perdido, concedendo-lhe a graça!
3- Como conquistar os florentinos?
Ó meu bondoso e santo pai! Não vejo outra maneira para reconquistardes vossas ovelhas desobedientes e insubordinadas, que deixaram o redil da santa Igreja. Em nome de Jesus crucificado eu vos peço e que useis de misericórdia. Vencei a malícia com a benignidade.
Ó pai, nós vos pertencemos. Sei que o povo está consciente que agiu mal. Justificação não havia para seu comportamento, mas as pessoas achavam que não podiam agir de outro modo, por causa dos muitos sofrimentos, injustiças e maldades que suportavam da parte dos pastores e governantes. Devido à vida desregrada de muitos responsáveis, demônios encarnados como vós sabeis, as pessoas tiveram medo e agiram como Pilatos, que, a fim de não perder o cargo, matou Jesus. Foi o que fizeram. Para conservar a posição, perseguiram-vos. Imploro vossa misericórdia para eles, pai. Não olheis a maldade e o orgulho dos vosso filhos. Concedei a paz aos filhos que vos ofenderam, usando a isca do amor e da bondade. E corrigi-los mediante um suave castigo, conforme vos agradar. Ó doce Cristo na terra! Em nome de Jesus, que está no céu, eu vos digo: se agirdes sem violência e tempestade, todos virão arrependidos da ofensa cometida e depositarão a cabeça no vosso peito. Vós sereis feliz e nós também, pois mediante o amor tereis reconduzido ao redil da santa Igreja a ovelha tresmalhada.
4- A cruzada e o retorno a Roma.
Se agirdes dessa forma, meu doce pai, realizareis vosso desejo santo e a vontade divina da Cruzada. Em nome de Deus eu vos convido a realizá-la quanto antes, sem demora. Todos dela participarão com grande amor, dispostos que estão a dar a vida por Cristo. Ó meu Deus! Ó meu querido pai! Erguei logo o estandarte da cruz e vereis os lobos se mudarem em cordeiros. Paz, paz, paz, a fim de que a guerra (entre cristãos) não faça demorar tal acontecimento.
Se por acaso tiverdes a intenção de vingar-vos, fazei-o sobre mim. Dai-me os castigos e tormentos que vos agradarem, até o dia da minha morte. Julgo que foi por meus pecados que muitos erros, muitos inconvenientes e discórdias sobrevieram (à Igreja). Vingai-vos sobre esta vossa filha como quiserdes. Ai de mim, pai! Morro de tristeza e não consigo morrer…
Voltai, voltai (à Roma)! Não resistais à vontade divina, que vos chama. Ovelhas esfaimadas esperam vosso retorno, para ocupardes e tomardes posse da sede do vosso antecessor, São Pedro. Como representante de Cristo, deveis estar no lugar que vos pertence. Vinde, pois, vinde sem demora! Criai coragem, sem medo de que algo aconteça, pois Deus estará convosco. Humildemente peço a vossa bênção. Para mim e para todos os meus filhos. E suplico que perdoeis a minha presunção.
5- Conclusão
Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus, Jesus doce, Jesus amor!
Conselhos ao legado Pontifício
(Carta n° 7 a Pedro d’Estaing)
1- Saudação e objetivo
Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssimo e reverendo pai no bondoso Cristo Jesus, eu, Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de ver-vos ligado pelos laços da caridade, pois fiquei sabendo que fostes nomeado Legado (pontifício) na Itália.
2- A caridade e a missão do legado pontifício
Alegrei-me muito com isso, após pensar que podereis fazer bastante coisa pela glória de Deus e o bem da Santa Igreja. Mas sem o amor-caridade nada conseguireis. Eis a razão por que disse estar desejosa de ver-vos ligado pelo laço da caridade. Bem sabeis que sem a caridade. nenhum bem ou utilidade se pode realizar no plano da graça. A caridade é o laço que une a alma ao Criador. Ela une Deus ao homem e o homem a Deus. Foi a infinita caridade que reteve o Filho de Deus no madeiro da cruz. Ela harmoniza os discordantes, reúne os separados, enriquece os pobres de virtude. De fato, é a caridade que vivifica todas as virtudes. A caridade traz a paz, afasta as guerras, dá paciência, fortaleza, perseverança na prática do bem. A caridade jamais se cansa, jamais se afasta do amor a Deus e ao próximo por causa de sofrimentos, maus tratos, injúrias, caçoadas ou ofensas. A caridade não se perturba diante das impaciências, nem ante as satisfações e consolos do mundo. Quem possui a caridade é forte, não vacila; está alicerçado numa rocha firme, o bondoso Jesus Cristo. Aprendeu com Jesus a amar o Criador, seguindo-lhe os passos. Em Jesus encontrou a norma e a verdade a seguir, pois Jesus é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6). Quem lê Jesus no livro da vida (Ap 20,15) vai pela estrada reta e preocupa-se unicamente com a glória divina e a salvação do próximo. Foi assim que agiu o bondoso Jesus: jamais falhou no amor ao Pai e à nossa salvação. Ainda que diante dos sofrimentos, seduções, ingratidões. Perseverou até o fim, até a realização da missão dada pelo Pai de remir a humanidade. Foi assim que Jesus glorificou o Pai e nos salvou.
Quero, pois, que dessa forma estejais ligado ao amor, como discípulo de Cristo, que se tornou vosso caminho, exemplo e norma, mestre da verdade. Quero que vós, autêntico filho e servo remido pelo sangue de Cristo crucificado, trilheis suas pegadas com virilidade de coração e total disponibilidade, sem jamais recuar diante das dificuldade ou das facilidades. Quero que persevereis até o fim do missão, bem como em toda outra que enfrentardes pelo Cristo crucificado. Procurai extirpar as maldades do mundo, os inumeráveis erros que existem, com ofensa ao nome de Deus. Sedento da glória divina e da salvação dos homens, esforçai-vos quanto possível para remediar tanta maldade. Tenho certeza de que vós, enlaçado pelo vínculo da caridade, usareis da ligação recebida do Representante de Cristo para isso. Imploro-vos: vinculai-vos ao amor, uni-vos a Cristo crucificado, segui seus passos mediante as virtudes verdadeiras e reais. Uni-vos ao próximo pelo amor.
3- Os males do egoísmo
Pai caríssimo! Quero que reflita comigo no seguinte. Se a nossa alma não estiver despojada de todo o egoísmo e ficar procurando agradar a si mesma e ao mundo, jamais atingiremos a caridade-amor. São realidades que se excluem. O egoísmo ou amor-próprio te separa de Deus e do próximo, ao passo que a caridade te une a eles. Um te dá a morte, o outro a vida; um as trevas e o outro, a luz; este a guerra, aquele a paz. O egoísmo fecha o coração, ali não deixando espaço nem para ti, nem para o próximo; a caridade, pelo contrário, alarga teu coração para acolher a todos, amigos e inimigos. Eis a pessoa que se veste de Cristo e o segue. O egoísmo é infeliz. Ele expulsa a justiça e pratica o que é injusto. O amor próprio é um amor servil: faz a pessoa deixar de cumprir o próprio dever ante adulações ou temores de perder o cargo. Foi a perversa escravidão e medo que levaram Pilatos a condenar Jesus. Pessoas assim são injustas. Não praticam a justiça, não vivem a justiça na virtude e no amor divino. Vivem mal, nos vícios, em tenebroso egoísmo.
Eis o tipo de amor que desejo ver inteiramente afastado de vós. Quero-vos alicerçado na caridade perfeita e verdadeira. Quero que ameis a Deus por causa de Deus. Bondade suprema e eterna, Deus é digno de ser amado. E quero que ameis o próximo por causa de Deus, não por interesses pessoais. Ó meu pai, Legado papal! Quero vervos assim! Um Legado preso ao amor verdadeiro e ardente. Eis o que minha alma vos deseja!
4- Conclusão
Nada mais acrescento. Fortalecei-vos no bondoso Cristo Jesus. Sede esforçado, sem negligência, no que deveis fazer. Nisso verei que sois o Legado e quereis ver desfraldando o estandarte da Cruzada. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor!
Um pacote de conselhos ao Papa
(Carta n° 370 ao Papa Urbano VI)
1- Saudação e objetivo
Em nome de Jesus Cristo crucificado e da bondosa Maria, santíssimo e dulcíssimo pai no doce Jesus Cristo, eu, Catarina, indigna e mísera filhinha, vos escrevo muito desejosa de ver em vós uma prudência acompanhada pela luz da verdade, de modo que eu vos veja imitando o exemplo do glorioso São Gregório Magno.
2- Deus vos conceda prudência
Que eu vos veja governar a santa Igreja e as vossas ovelhas com muita prudência, de maneira que não tenhais de desdizer nenhuma ordem dada, nem mesmo a menor palavra. Que diante de Deus e dos homens sempre apareça uma firmeza fundamentada na verdade, como convém a um santo Pontífice. Sobre isso, peço a Deus que, seu inestimável amor, revista vossa alma. Penso a luz e a prudência são de muito grande necessidade para nós, mas sobretudo a Vossa Santidade e a qualquer outro em vosso lugar. Mais ainda em nossos tempos. Como sei que é vosso desejo possuí-las, recordo-vos e manifesto-vos esse desejo de minha alma.
3- Aos romanos, prometei o que puderdes cumprir
Pai santíssimo, fiquei sabendo da violenta resposta que o governador de Roma, num ímpeto de ira e de falta de respeito, deu aos representantes do povo. Parece-me que os chefes locais vão reunir um conselho geral e depois, na companhia de pessoas importantes, irão até vós. Pai santíssimo, como já começastes a reunir-vos com eles, peço-vos que continueis a fazê-lo muitas vezes. Com prudência, atraí-os com laços de amor. Após o Conselho Geral, acolhei-os com a bondade que puderdes, orientando-os no que deverão fazer de acordo com o que vos parecer bom. Perdoai-me, pois o amor me faz dizer coisas que nem deveria. Sei que já tendes conhecimento da mentalidade dos vossos filhos romanos, que se deixam atrair mas pela bondade do que pela força e severidade. Sabeis também como é necessário, para vós e para a santa Igreja, conservar este povo a obediência e no respeito à vossa Santidade. Nisso está a base e o alicerce da nossa fé. Humildemente vos peço que, com prudência, sempre procureis prometer apenas o que podeis plenamente cumprir, para que não surjam danos, vergonha e confusão. Dulcíssimo e santíssimo pai! Perdoai-me por dizer-vos tais coisas! Confio que vossa humildade e bondade ficarão contentes de que elas vos sejam ditas, não as olhando com desprezo e raiva, pois procedem de uma vilíssima mulher. Quem é humilde não considera quem lhe está falando, mas preocupa-se com a honra divina, a verdade, a própria salvação.
Confiai e não tenhais medo diante de qualquer resposta que aquele rebelde vos deu ou venha a dar. Deus dará solução para esse caso e para todo outro, como Piloto e protetor da pequena nave da Igreja e de Vossa Santidade. Sede inteiramente viril, no santo temor de Deus; sede inteiramente exemplar nas palavras, nos costumes todas as vossas atividades. Que todas elas sejam transparentes ao olhar de Deus e dos homens, como lâmpada colocada sobre o candelabro da santa Igreja, para a qual olha e deve olhar todo o povo cristão.
4- Substituí os maus colaboradores
A respeito daquilo que vos referiu Leão, procurai remediar. O escândalo continua a crescer até hoje. Não apenas pelo que aconteceu ao Embaixador de Sena, mas também por outras ocorrências que se verificam todos os dias, provocando a ira dos fracos corações humanos. Vós não tendes necessidade de pessoa assim, mas de alguém amante da paz, não da guerra. Ainda que pessoalmente ele o faça por zelo de justiça, são numerosos os que agem desordenadamente e por ímpeto de ira, fora de toda ordem e racionalidade. Peço a Vossa Santidade com insistência que tenhais pena da fraqueza dos outros, procurando um médico que cure sua enfermidade. Não fiqueis esperando que ele morra. Informo-vos que se não for dada uma solução, a enfermidade crescerá. Lembro-vos a grande ruína que aconteceu em toda a Itália porque não se tomou providência quanto aos maus Responsáveis, os quais exerciam o governo de tal modo que despojaram a Igreja de Deus. Sei que vós estais a par do que aconteceu. Vede, Santidade, o que é preciso fazer agora. Coragem, coragem! Deus não despreza vossos desejos e a oração dos seus servidores.
5- Conclusão
Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Humildemente imploro a vossa bênção. Jesus doce, Jesus amor!
Bônus: Trecho da Última Carta de Santa Catarina
Esta carta, a última escrita por Santa Catarina de Sena, foi por ela ditada no dia 15 de fevereiro de 1380, pouco mais de dois meses antes de sua morte. Podemos considera-la como seu testamento.
Quero que não recueis diante de qualquer adversidade e perseguição; nas dificuldades quero que vos alegreis e vos glorieis. Na luta, manifestamos nosso amor e constância, glorificamos a Deus. Não há outra maneira. Pai caríssimo, chegou o tempo de renunciar inteiramente a si mesmo, de não pensar em si, como faziam os gloriosos operários do passado. Com amor e desejo (santo) eles se dispunham a entregar a própria vida e a regar o jardim da Igreja com sangue, com orações humildes contínuas, resistindo até a morte. Que eu não vos veja tímido ou com medo da própria sombra! Pelo contrário, sede um batalhador viril. Nunca deixeis o jugo da obediência que o Sumo Pontífice vos impôs. Também na Ordem dominicana, esforçai-vos por realizar o que julgardes honroso para Deus. É o que exige de nós a grande bondade divina. Não foi por outro motivo que Deus nos chamou. Vede como são grandes as necessidades da santa Igreja. Em tudo ela está sozinha. Assim me falou a Verdade eterna, como lhe escrevi noutra carta. E achando-se sozinha a Igreja, o mesmo acontece com o seu Esposo, o papa.