“Da Cruz, Nosso Senhor pronunciou sete palavras; mas houve também palavras dirigidas a Nosso Senhor na Cruz.
A primeira palavra à Cruz
Há pessoas que nunca permanecem perto da cruz tempo suficiente para absorver a graça que flui do Crucificado. São conhecidos como transeuntes, “os que passavam”.
Os que passava o injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam: Tu, que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz! (São Mateus 27,39-40)
Mal o Senhor foi posto na Cruz, pediram-lhe que descesse. “Desce da Cruz” é o pedido mais característico de um mundo não regenerado diante da negação de si, da abnegação: uma religião sem Cruz. Como o Filho de Deus estava orando pelos executores, “Pai, perdoa-os”, escarneceram Dele: “Se és o Filho de Deus”. Se Jesus tivesse obedecido à provocação “Desce em quem creriam? Como o Amor pode ser Amor se não custa nada ao Amante? Se Cristo tivesse descido, teria havido a cruz, mas não o crucifixo. A Cruz é contradição; a Crucifixão é a solução da contradição de vida e morte ao mostrar a morte como condição de uma vida superior.
Os transeuntes, sem vergonha alguma, reviveram no julgamento a veIha acusação de que Ele destruiria o templo de Jerusalém e então ergueria outro em três dias, conquanto soubessem que o Senhor falava do Templo de Seu Corpo. Essa afirmação os incomodava tanto que a repetiram até quando Estevão, o primeiro mártir, foi apedrejado. Contudo, o escárnio é um ingrediente do cálice do sofrimento; como os discípulos obteriam força em julgamentos similares se o Mestre não tivesse suportado tudo com paciência? A crueldade dos lábios que zombam é parte da herança do pecado tanto quanto a crueldade das mãos que fixam os cravos. No alto do monte da tentação, Satanás usou a mesma técnica quando pediu ao Senhor que transformassem pedras em pães. Era indecente que o Filho de Deus tivesse fome! Agora, era indecente que Filho de Deus sofresse.
Por que os transeuntes não tiveram paciência de esperar os “três dias” que estavam indicados em suas provocações? Céticos sempre querem milagres como a descida da Cruz, mas nunca o milagre maior do perdão.
A segunda palavra à Cruz
No mundo só há lugar para o ordinário; nunca para o muito bom nem para o muito mau. Os bons são uma repreensão aos medíocres; os maus, uma perturbação. Por isso, no Calvário, a Bondade é crucificada entre dois ladrões. Esta é a Sua posição verdadeira: entre os desvalidos e rejeitados. Ele é o homem certo no lugar certo. Aquele que disse que viria como um ladrão de noite está entre ladrões; o Médico está entre leprosos; o Redentor está em meio aos não redimidos.
O bom ladrão, tocado por Cristo, dizia agora ao Salvador na cruz:
Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino! (São Lucas 23,42)
Essa foi a única palavra dita à Cruz que não era uma reprimenda. Enquanto os transeuntes estavam julgando a Divindade de Nosso Senhor com base na libertação da dor, o bom ladrão estava pedindo libertação do pecado. O crente não pede provas; nem havia uma condição: “Se és o Filho de Deus”. Suas palavras indicavam que decerto Aquele que podia conduzi-lo ao Reino podia aplacar sua dor e afrouxar os cravos, se assim quisesse.
O comportamento de todos em torno da Cruz era a negação da própria fé que o bom ladrão manifestou; ele acreditou quando os demais mostraram incredulidade. O ladrão penitente chamou-O “Senhor” ou Aquele que tem o direito de governar; atribuiu-Lhe um Reino que certamente não era deste mundo, pois Ele não tinha sinal externo de realeza. Vítima e Senhor eram para o bom ladrão termos compatíveis. Um ladrão moribundo entendeu isso antes dos apóstolos. Essa é a única conversão no leito de morte mencionada nos Evangelhos, mas foi precedida pela Cruz do sofrimento. O bom ladrão pediu para ser lembrado. Mas, por que ser lembrando, senão porque o perdão que Cristo ofereceu a Seus executores podia ser oferecido também a ele? Tampouco houve uma palavra de censura ou repreensão ao ladrão, pois seu coração já estava dilacerado e partido. Essa foi a única palavra dita à Cruz que recebeu uma resposta, e foi a promessa do Paraíso ao ladrão naquele mesmo dia.
A terceira palavra à Cruz
A terceira palavra da cruz veio do ladrão à esquerda:
Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós! (São Lucas 23,39)
O típico homem egoísta que nunca está consciente de ter praticado o mal pergunta: “Por que Deus fez isso comigo?”. Julga o poder salvador de Deus com base na liberação de julgamentos. O ladrão à esquerda foi o primeiro comunista. Muito antes de Marx, ele dizia: “Religião é o ópio do povo. Se não pode aliviar o sofrimento, para que ela serve?”. Uma religião que pensa nas almas quando os homens estão morrendo que os faz olhar para Deus no momento em que as cortes estão infligindo injustiça, que fala de Paraíso ou “torta no céu” quando as barrigas estão vazias e os corpos, tomados de dor, que discursa sobre perdão quando excluídos da sociedade, dois ladrões e um carpinteiro da região, estão morrendo num patíbulo — tal religião é o ópio do povo”.
A única salvação que o ladrão à esquerda podia compreender não era espiritual ou moral, mas física: “Salva-te a ti mesmo e a nós!”. “Salvar o que nossas almas? Não! O homem não tem alma! Salva nossos corpos. De que serve a religião se não para parar a dor? Desce da cruz! Resgata uma classe social! Ou o cristianismo é um evangelho social ou é uma droga”. Tal era seu clamor.
Os homens podem estar em circunstâncias idênticas e reagir de modos totalmente diferentes. Ambos os ladrões eram semelhantes na depravação do coração, mas cada um reage de maneira diferente ao homem que estava entre eles. Nenhum instrumento externo, nenhum bom exemplo, em si e por si basta para converter alguém se não houver transformação do coração, Esse ladrão certamente era judeu, pois baseou a aceitação do Messias ou Cristo tão somente em Seu poder de tirá-lo da cruz. Imagine, no entanto, que Cristo de fato lhes tivesse retirado os cravos, secado as fontes nas mãos pés, restaurando-lhes o vigor da vida. Será que o restante da vida dele teria sido uma demonstração de fé em Cristo- ou uma continuação de sua vida como ladrão? Se Nosso Senhor fosse só um homem com uma reputação a zelar, Ele teria de mostrar Seu poder a todo momento e em todo lugar; mas, sendo Deus, que conhece os segredos de todo coração, Ele se manteve em silêncio. Deus nunca responde à oração do homem meramente para mostrar Seu poder.
A quarta palavra à Cruz
Essa palavra veio da intelligentsia da época, o chefe dos sacerdotes, escribas e fariseus.
Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo!
Se é rei de Israel, desça agora da cruz e nós creremos nele!
Confiou em Deus, Deus o livre agora, se o ama, porque ele disse: Eu sou o Filho de Deus!
(São Mateus 27,42-43)
A intelligentsia sempre conhece uma religião o bastante para distorcê-la, consequentemente toma cada um dos três títulos que Cristo reivindicara para si – “Salvador”, “Rei de Israel” e “Filho de Deus”-e faz troca deles.
“Salvador”: Assim Ele foi chamado pelos samaritanos. Agora, eles admitiriam que salvara aos outros, provavelmente a filha de Jairo, o filho da viúva de Naim e Lázaro. Podiam permitir-se admitir agora, pois o próprio Salvador estava em necessidade de salvação. “Salvou outros e não pode salvar a si mesmo”. O milagre conclusivo para eles ainda estava faltando.
Claro, Ele não podia salvar a Si mesmo! A chuva não pode se salvar, se tem de fazer o verde florescer. O Sol não pode se salvar, se tem de iluminar o mundo; o soldado não pode se salvar, se tem de salvar seu país. E Cristo não pode salvar-se, se tem de salvar Suas criaturas.
“Rei de Israel”: Ele recebeu esse título da multidão depois de tê-la alimentado e fugido para as montanhas sozinho. Repetiram novamente no Domingo de Ramos, quando estenderam ramos sob Seus pés. Agora, o título era empregado em tom zombeteiro: “Se é rei de Israel, desça da Cruz”.
Todos os reis da terra têm de sentar-se em tronos de ouro? Imagine que o Rei de Israel decida governar de uma Cruz, não ser Rei de seus corpos pelo poder, mas de seus corações pelo amor. A própria literatura judaica sugeria a ideia de um Rei que alcançaria a glória por meio da humilhação. Que tolice então, zombar de um Rei porque recusou descer do trono. E se Ele tivesse descido, seriam os primeiros a dizer, como o fizeram antes, que Ele agiu pelo poder de Belzebu.
Forças irreligiosas têm seus feriados em momentos de grande catástrofe. Em tempos de Guerra, perguntam: “Onde está teu Deus agora?”. Por que, em tempos difíceis, é sempre Deus que é posto à prova, e não o homem? Por que na guerra o juíz e o réu têm de trocar de lugar quando o homem pergunta: “Por que Deus não para a guerra?”?
Foi esse tipo de zombaria que o Cristo teve de ouvir! Eles não sabiam que já estavam perdidos. Pensavam que Ele estava. Por isso, eles, os verdadeiros condenados, zombavam Daquele que criam estar condenado. O inferno estava triunfando no humano! De fato, essa era a hora do poder dos demônios do inferno.
Disseram que creriam se Ele descesse. Mas não creram quando O viram levantar Lázaro dos mortos. Tampouco creriam quando Ele se levantasse dos mortos. Proibiriam, então, que os apóstolos pregassem a Ressurreição que sabiam ser um fato. Ninguém que descesse da cruz teria conquistado os homens. Descer é humano; perdoar é divino!
Quinta palavra à Cruz
Quando houve trevas sobre a terra, Nosso Senhor fez ressoar um brado que desencadeou a quinta palavra da Cruz:
Eli, Elói, lammá sabactáni? (São Marcos 15, 35)
que quer dizer:
Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?
Ao ouvir isso, alguns dos que estavam ali disseram:
Ele chama por Elias! [..] Deixai, vejamos se Elias vem tirá-lo. (São Marcos 15,35-36)
Não é certo se havia ou não uma distorção intencional do clamor do Senhor para que tomassem Elói por Elias. Mas decerto havia escárnio, pois era uma crença dos judeus, profetizada por Malaquias, que Elias havia de vir antes que o Senhor viesse. Suas palavras significavam que Ele certamente não podia ser o Senhor, pois Elias ainda não tinha vindo. Assim, fizeram o autoproclamado Messias parecer como se invocasse um homem que tinha de preceder Sua vinda. Na verdade, Elias vieira em espírito na pessoa de João Batista. Antes que João nascesse, o anjo apareceu a Zacarias, seu pai, dizendo que o filho que lhe havia de nascer:
[…] converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus, e irá adiante de Deus com o espirito e poder de Elias […] (São Lucas 1,16-17)
Que o espírito de Elias repousava sobre João era evidente, pois o primeiro sermão que o Batista pregou foi “Arrependei-vos”. Foi assim que Malaquias profetizara que o precursor do Senhor O anunciaria. Ademais, as vestes e o estilo de vida de João indicavam sua estreita semelhança com o grande tesbita. O Senhor estava na Cruz; Elias viera em espírito. Os escarnecedores sem dúvida se lembravam da referência de Nosso Senhor a Elias durante sua vida pública. Ele estava contando aos mensageiros de João que a recepção de qualquer verdade que Ele ensinava dependia da vontade de cada um. Daí o fato de aceitar João com Elias significar aceitar o arrependimento que João havia de despertar em suas almas:
E, se quereis compreender, é ele o Elias que devia voltar.(São Mateus 11,14)
Se a consciência deles estivesse correta, disse-lhes, teriam aceitado João no espírito de Elias. Passaram-se dois anos, e suas consciências foram reveladas quando Cristo pendia na Cruz. Haviam rejeitado João por seu ascetismo e abnegação; agora rejeitaram Jesus por pender na Cruz. Assim como o povo esperava um Elias diferente como Seu precursor, também esperavam um Cristo diferente. O grito para a cruz, da parte daqueles que não entendiam uma palavra, era típico de muitos que pensam que a religião sempre significa algo diferente daquilo que realmente é. Durante toda a Crucificação o único motivo unificador era: “Desce da cruz”. Satanás não queria que Ele fosse fixado ali, Pedro ficou escandalizado no exato momento em que ela foi mencionada. Nem mesmo aqueles que criam que Cristo era uma pessoa humana queriam Sua Cruz. O mundo sempre está à espera de Elias para tirá-lo de lá. O Cristo não crucificado é o desejo do mundo. A recusa a descer sempre será a reprovação daqueles que querem um Cristo fraco com as mãos brancas e sem chagas.
A sexta palavra à Cruz
A sexta palavra à Cruz veio dos soldados:
Do mesmo modo zombavam dele os soldados.
Aproximavam-se dele, ofereciam-lhe vinagre e diziam:
Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.
(São Lucas 23,36-37)
Esses homens não eram judeus, nem cidadãos da Israel ocupada; eram orgulhosos legionários de Roma. Por que, então, refere-se ao Senhor, zombando, como o Rei dos Judeus? Porque, segundo o espírito do paganismo, pensavam que todos os deuses eram deuses nacionais. A Babilônia tinha seus deuses; os medos e os persas também tinham os seus; os gregos da mesma forma; e assim também os romanos tinham seus próprios deuses. A conclusão era que, de todos os deuses nacionais, nenhum parecia mais pobre e fraco que o Deus de Israel, que não podia salvar a si mesmo do madeiro. É provável, também, que a zombaria dos soldados fosse inspirada pela inscrição na Cruz nas três línguas, em que se lia:
Jesus de Nazaré, rei dos judeus.
(São João 19,19)
Outros Lhe tinham pedido que descesse da Cruz ou salvasse a si mesmo, mas os soldados, assim como o ladrão à esquerda, desafiaram-No a “salvar-Se si mesmo”. Eles também estavam interessados na salvação, mas apenas física, não espiritual. Havia latente certo orgulho com quão bem tinham feito seu trabalho de execução, pois Ele não podia desprender-se da Cruz.
Os soldados já tinham lançado sortes por sua túnica sem costura. Caifás havia rasgado as vestes sacerdotais, mas a túnica do Sumo Sacerdote na cruz, não foi rasgada. Deixou para os profanadores militares Sua túnica sem costura e a crença de que Ele não podia salvar-Se a si mesmo. Estariam a postos no sepulcro na manhã da Páscoa para ver quanto estavam errados e por que Ele não salvaria a Si mesmo.
Esses soldados pertenciam a um império em que um general que sacrificava milhares de soldados em troca de glória temporal era tido em alta; mas zombavam do capitão da salvação que pessoalmente morreu para que outros pudessem viver. Essa é uma das poucas passagens do Novo Testamento em que se fala de soldados de maneira desfavorável. Poucos deles viram que Sua recusa a Se salvar não era fraqueza, mas obediência à lei do sacrifício. A vida deles levava-os ao compromisso com o dever de morrer, se necessário, para salvar a pátria. Mas não conseguiram compreender o mesmo sacrifício erguido acima do plano militar. Só podiam ver os acontecimentos em sucessão; mas Ele ordenara tudo desde o princípio. Ele veio para “dar a vida em resgate de muitos”. Se em obediência à ordem deles o Senhor tivesse salvado a Si mesmo, os homens teriam sido deixados sem salvação.
A sétima palavra à Cruz
Quando Cristo foi crucificado, o sol escondeu sua luz; quando Ele morreu, a terra foi abalada em luto. Naquele terremoto, as rochas se partiram, túmulos se abriram, e muitos corpos dos santos que dormiam se levantaram e saltaram das tumbas e apareceram a muitos na Cidade Santa. Se a terra deu sinais de reconhecimento quando Deus estava libertando Seu povo da escravidão no Egito ao separar as águas do mar, com tanto mais razão agora ela manifestava reconhecer como o Senhor libertou o homem da servidão do pecado. Ainda que o coração do povo não pudesse se partir, as pedras podiam.
O centurião, encarregado dos soldados, percebendo o terremoto e relembrando o modo como o homem na cruz central tinha morrido, começou a refletir. Então esse sargento do Exército romano deu um testemunho, não no reino dos sonhos, como o fizera Cláudia, a outra pagã, mas com a expressão de um homem honesto e sensato:
Este homem era realmente o Filho de Deus.
(São Marcos 15,39)
O Cristo que fora completamente abandonado pelos discípulos, exceto um, aos pés da Cruz; que não ouviu nem sequer uma voz em Sua defesa exceto a de uma mulher; e que não teve ninguém que se apresentasse corajosamente para reconhecê-Lo — Ele é enfim reconhecido em Sua morte por um soldado com as marcas de batalha que havia comandado e presidido a execução. Sem dúvida o centurião já tinha crucificado muitos antes, mas sentiu que havia algo misterioso neste Sofredor, que orava por Seus inimigos e era tão forte no último suspiro, como prova de que Ele era Mestre da vida que estava entregando. Vendo toda a natureza tornar-se animada e expressiva, sua mente viu a refutação das calúnias tolas e a inocência do homem justo; sim, e mais, proclamou Sua divindade.
A Cruz estava começando a frutificar: um ladrão judeu havia pedido e recebido a salvação; agora um soldado de César prostrou-se em adoração ao Divino Sofredor. Aquela estranha combinação que estava por toda parte na vida pública de Nosso Senhor está agora manifesta na Cruz: humilhação e poder. Enquanto outros O condenaram por blasfêmia, o centurião O adorou como o Filho de Deus.