Salve Maria!
Santo Agostinho passou por uma conversão fora do convencional. Diferente do que estamos acostumados, Agostinho não se converteu após uma frustração moral e sim, após uma busca incessante pela verdade (que durou mais de 14 anos) e fez com que o santo, em fim, de coração contrito se rendesse a Cristo.
“Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6a)
Durante a sua juventude ao ler o livro Hortensius, de Cícero, que criticava a tolice de se apegar as coisas efêmeras desse mundo, Agostinho foi interiormente tocado e desde então passou a aspirar pela verdade. Verdade essa que o santo encontrou, após muitos impasses, aos 32 anos, iluminado pela luz da fé e da razão.
Em suas Confissões Agostinho faz diversas reflexões, e nesse artigo iremos com o santo meditar a respeito de algo que todo o ser humano deseja (buscando corretamente ou não): A felicidade.
“Eu não sou o único, nem são poucos os que desejam ser felizes; mas todos sem exceção o querem” (Confissões X, 21)
De fato, todos desejam ser felizes e isso se reflete nas nossas decisões e ações. Entretanto, nós sabemos que a felicidade se encontra em Deus somente, como confessa Santa Agostinho:
“Longe de mim, Senhor, longe do coração do teu servo, que se confessa diante de ti, longe o pensamento de que uma alegria qualquer possa torna-lo feliz. Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas aqueles que te servem por puro amor: essa alegria és Tu mesmo. E esta é a felicidade: alegrar-nos em ti, de ti e por ti”. (Confissões X,22)
Desde a sua juventude, ao ler Cícero, e ter dentro de si o despertado desejo pela busca da verdade, Santo Agostinho já declarava que quando a encontrasse não teria receios de viver por ela. E ao supreendentemente encontrar a verdade, que é Deus, depois de longos anos vivendo dissolutamente, vertendo lágrimas dos piedosos olhos de sua penitente mãe, Santa Mônica, Agostinho também encontra a felicidade verdadeira.
“Felicidade é o gozo da verdade, o que significa gozar de Ti, que és a verdade, ‘ó Deus, minha luz e salvação de minha face’. (Sl 26,1; 41,6s) Essa felicidade, essa vida que é a única feliz, todos a querem, todos querem a alegria que provem da verdade”. (Confissões X, 23)
Entretanto, se todos os homens desejam ser felizes, e a “felicidade é o gozo da verdade”, o que significa gozar de Deus. Por que o ser humano não ama a Deus com uma vontade resoluta? Não O busca com uma determinada determinação?
Desejos ou simples palavras nada são sem uma ação concreta. Já dizia São Tiago que a fé sem obras é morta.
Nosso Senhor Jesus Cristo nos convida a agir: “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me.” (Lucas 9,23). Nisso, como reflete São Luís Maria Grignion de Montfort em sua Carta aos Amigos da Cruz, consiste a perfeição cristã:
1º em querer tornar-se santo: “Se alguém quiser vir após mim”;
2º em abster-se: “renuncie a si mesmo”;
3º em sofrer: “carregar a cruz”;
4º em agir: “siga-me”.
Tomás de Kempis sabiamente escreveu que, “conforme o nosso propósito é o curso do nosso progresso”. (Imitação de Cristo I, 19)
Todos os homens querem ser felizes, mas nem todos possuem um propósito resoluto. Desejam a felicidade, mas não fazem o que querem, “porque os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne; pois são contrários uns aos outros. É por isso que não fazeis o que quereríeis”. (Gl 5,17)
Pensando nesse contraste do desejo do homem em ser feliz e a pertinência do mesmo em seu nada, Santo Agostinho concluiu:
“Por que não são felizes? Porque se empolgaram demais com outras coisas, que os tornam infelizes mais facilmente do que a verdade os faria felizes, a verdade que tão debilmente eles recordam”.
Verdade que é tão debilmente recordada e que também gera ódio, como Agostinho declara: “De fato, o amor a verdade é tal que os que amam algo diferente querem que aquilo que amam seja a verdade. Como não admitem ser enganados, detestam ser convencidos do seu erro”. (Confissões X, 23)
E assim permanecem na ignorância, amando a verdade quando ela brilha, mas a odiando quando ela os repreende.
Santo Agostinho concluiu dizendo: “Será feliz quando, sem obstáculos nem perturbações, puder gozar daquela única verdade, fonte de tudo o que é verdadeiro”. (Confissões X, 23)
Com isso, podemos refletir a importância de conhecermos verdadeiramente a Deus. Não pintando um Senhor de acordo com as nossas preferências e fraquezas, mas o Deus verdadeiro que se revela aos seus filhos. Como fez Santo Agostinho, iluminado pela luz da fé e da razão. Não apenas pela razão, como fazem os racionalistas, e não apenas pela fé, como prega o fideísmo, mas iluminados por essas duas luzes que Deus nos deu para iluminar a nossa inteligência e assim contemplar a Sua verdade.
“Os que não querem ser vencidos pela verdade, serão vencidos pelo erro”. (Santo Agostinho de Hipona)
Pois, só assim, gozando dessa única verdade, seremos então felizes. Compreendendo e agindo em favor da vontade de Deus, sabendo que a santa felicidade é muito mais do que um “bem-estar passageiro”, mas a certeza de conhecer aquilo que é verdadeiro e segui-Lo, determinadamente, apesar de todas as contrariedades e perseguições. Doando-se, nunca buscando a si mesmo, mas sim ser feliz em Deus, amando-o, o fazendo amado, sendo amado por Ele.
Como Santo Agostinho, que após a sua conversão, seu encontro com a verdade e consequentemente com a felicidade, deixou todas as falsas delícias que o sufocavam para enfim, viver por Cristo e responder ao seu chamado de renunciar a si mesmo, carregar a sua cruz e segui-Lo.
Será que desejamos mesmo ser felizes? Se sim, não mediremos esforços para renunciar a nós mesmos, carregar a nossa cruz e seguir Jesus. Mesmo sendo miseráveis, se o nosso desejo é verdadeiro e o nosso amor puro, somos sustentados pela graça para andarmos de acordo com o Espirito.
“Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito.” (Gl 5, 24-25)
E assim, seremos felizes em busca de um dia contemplar a Deus na felicidade eterna.
Santo Agostinho, rogai por nós!