Do que acima se disse deduz-se que o cristão que quiser assegurar sua salvação eterna deverá evitar até as menores faltas, pois esses pequenos regatos tornam-se finalmente em rio caudaloso, no qual a alma miseravelmente se afoga. As faltas repetidas e das quais se não faz caso, arrastam a alma pouco a pouco ao estado de tibieza. Deste estado fala o Senhor, por boca de S. João, ao Bispo de Sardes: “Tenho conhecimento de tuas obras e de que não és nem frio nem quente” (Ap 3,15).
O cristão tíbio não ousa voltar as costas por completo a Deus, mas também não se incomoda com os pecados veniais, caindo em mil faltas todos os dias, como impaciências, mentiras, murmurações, gulodices, imprecações, apatias, loquacidade, curiosidades, vaidades, apego às honras, boa fama e vontade própria. Não liga importância a estas imperfeições e não pensa em se corrigir delas: “Oh! Antes estivesses frio ou quente, mas porque estás tépido e nem frio, nem quente, começarei a vomitar-te de minha boca”, conclui o Senhor. Oh! Antes estivesses frio, isto é, em pecado mortal, privado de minha graça, porque sentirias melhor a necessidade de auxílio; mas porque permaneces na tibieza, morno, estás em maior perigo de condenação, aproximando-te cada vez mais, sem te aperceberes, da queda no pecado mortal, da qual dificilmente te erguerás.
S. Gregório nutre esperanças a respeito de um pecador não convertido; desespera, porém, de uma alma tíbia, que não se importa com sua tibieza. E o motivo está nas palavras do Senhor: “Porque estás morno, começarei a vomitar-te de minha boca”. Facilmente se torna um bebida quente ou fria, não, porém, morna, porque esta causa ânsias de vômito. A alma tíbia encontra-se nesse perigo de ser vomitada por Deus, isto é, abandonada por sua graça. Deus retira-se por completo dela, pois causa nojo tomar na boca o que se vomitou.
Como, porém, começa Deus a vomitar uma alma? Deixando de outorgar-lhe, como dantes, aquelas luzes vivas da fé, aquelas consolações espirituais, aqueles santos desejos, aqueles convites amorosos, aquele gosto sobrenatural que a tornavam fervorosa e generosa; com isso começa a deixar a meditação, a comunhão, as visitas ao SS. Sacramento, as súplicas, ou então continua a praticar esses exercícios, mas com grande contrariedade, desgosto e distração, só para ver-se livre da obrigação, sem devoção nem fervor. Assim começa o Senhor a vomitá-la.
Ora, como a infeliz então só acha enfado e tédio em seus exercícios de devoção, sem consolação alguma, deixa por fim tudo e cai no pecado mortal. A tibieza, em uma palavra, é uma febre lenta, que apenas se nota, mas que traz irremediavelmente a morte. A alma tornada tíbia nem de longe pensa em se emendar de suas faltas; torna-se mesmo tão insensível aos remorsos que se precipita no abismo sem pressentir.